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O evento de Roma termina nesta quarta-feira (28) O evento de Roma termina nesta quarta-feira (28) 

Santa Sé na Pré-Cúpula da ONU: alimentos sejam acessíveis e nutritivos a todos

O evento de três dias em Roma reúne agricultores, empresas, povos indígenas, sociedade civil e líderes políticos mundiais. A Irmã Smerilli, chefe da delegação da Santa Sé afirma que 70% dos lucros do comércio global de produtos agrícolas estão concentrados nas mãos de algumas poucas empresas. São desequilíbrios que impedem uma verdadeira transição para a agroecologia e sistemas alimentares sustentáveis.
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Fabio Colagrande - Vatican News

A Pré-Cúpula sobre Sistemas Alimentares da ONU, organizada pelo governo da Itália, começou nesta segunda-feira (26), em Roma, em preparação ao evento global de setembro em Nova York. O encontro de três dias já contou com a participação do Papa Francisco, com uma mensagem em que denuncia a fome como um crime aos direitos humanos, mas está sendo caracterizado como uma "Cúpula Popular" já que além de líderes políticos e ministros, inclui jovens, agricultores, povos indígenas, sociedade civil, pesquisadores, setor privado. O encontro apresenta as últimas abordagens científicas para a transformação dos sistemas alimentares, e pretende lançar uma série de novos compromissos através de ações conjuntas e mobilizar novos financiamentos e parcerias.

Sobre as preocupações prioritárias expressas pelo Vaticano em relação às questões que serão tratadas e as exigências que serão feitas, além de boas práticas sugeridas em nível global, a Irmã Alessandra Smerilli, subsecretária do Dicastério para o Serviço de Desenvolvimento Humano Integral, coordenadora da força-tarefa econômica da Comissão Vaticana Covid-19, também nomeada chefe da delegação da Santa Sé na Pré-Cúpula da ONU, oferece um quadro articulado e preciso sobre o evento de Roma e seus objetivos:

"A Pré-Cúpula se concentra nos sistemas alimentares, ou seja, em todos os aspectos da alimentação e nutrição das pessoas: cultivo, colheita, embalagem, processamento, transporte, comercialização e consumo de alimentos. É um evento de relevância global que visa focar a atenção na necessidade de transformar os sistemas agroalimentares para realizar a visão da Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável, para aumentar a resiliência no contexto da pandemia de Covid-19, fortalecer as cadeias de valores locais, melhorar a nutrição e para reutilizar e reciclar os recursos alimentares de modo que o desperdício possa ser reduzido pela metade.”

Quais as recomendações da Santa Sé sobre o tema da transformação dos sistemas alimentares?

“Temos algumas mensagens importantes a oferecer para a discussão. Antes de mais nada, o direito à alimentação é fundamental para a dignidade humana. Toda pessoa tem um direito fundamental à vida e um direito às necessidades da vida com dignidade. Quando nos reunimos para celebrar a Eucaristia, lembramos que o pão e o vinho, e todos os outros alimentos, são primeiro ‘o fruto da terra e o trabalho das mãos humanas’. Quando comemos juntos como uma família, estamos compartilhando a vida, a vida em uma de suas mais belas formas de cuidados, de alimentação. Não podemos permitir que tantos de nossos irmãos e irmãs, membros de nossa família comum, vão para a cama com fome. Então, hoje temos a oportunidade de sair da crise da Covid-19 melhor do que antes, transformando radicalmente nosso sistema alimentar atual para que ele possa se tornar ambientalmente sustentável e ao mesmo tempo atender às necessidades da população mundial de uma maneira justa. Em nossa opinião, um sistema alimentar no mundo pós-pandêmico deve assegurar uma abordagem holística que considere as dimensões econômica, ambiental, social, cultural e de saúde dos alimentos. Isto inclui um profundo compromisso com a educação alimentar. Mas deve também proteger os direitos de propriedade das comunidades pobres e indígenas, assim como proteger os ‘bens comuns’, aquelas florestas e terras tradicionalmente manejadas e compartilhadas por toda uma comunidade. Além disso, é preciso construir cadeias de abastecimento e distribuição de alimentos resistentes e sustentáveis. Isto inclui a construção de uma infraestrutura que conecta os pequenos agricultores com os mercados locais e nacionais. Dietas saudáveis e acessíveis também devem ser promovidas. Os alimentos acessíveis e nutritivos devem estar disponíveis para todos.

Também é importante preservar os recursos para as gerações presentes e futuras. Passar para um modelo circular de produção de alimentos que regenera os sistemas naturais promove a boa saúde, melhora os ecossistemas naturais e protege os habitats naturais para sustentar a biodiversidade. Mas um sistema alimentar também deve ser inclusivo. Mulheres, jovens, pequenos produtores e outros que agora são excluídos e deixados para trás precisam de um lugar à mesa quando as políticas e decisões que os afetam são tomadas. Também acreditamos que o importante papel da família deve ser reconhecido. Na família, aprendemos a apreciar os frutos da terra sem abusar deles e descobrimos as melhores ferramentas para promover estilos de vida que respeitem o bem pessoal e coletivo. Finalmente, acreditamos que o conhecimento ancestral (por exemplo, tribos indígenas reunindo seus alimentos nas florestas ou pastores nômades), deve ser valorizado e respeitado. Precisamos de uma interação forte e respeitosa entre a ciência e o conhecimento tradicional, que são ambos pilares fundamentais nos sistemas alimentares. O conhecimento tradicional dos pequenos agricultores e dos povos indígenas não deve ser negligenciado ou ignorado, enquanto seu envolvimento direto permite que todos compreendam melhor suas reais prioridades e necessidades.”

Quanto a segurança alimentar está ligada à questão da mudança climática e, portanto, às preocupações expressas na Laudato si’?

“No mundo de hoje, três fatores-chave da fome podem ser compreendidos em três 3Cs: Conflito, Covid-19 e Mudança Climática (‘cambiamento climatico’, em italiano). Seus efeitos devastadores combinados em todas as etapas da cadeia de abastecimento alimentar são alarmantes. Estima-se que só a pandemia, através de seus efeitos sobre o poder de compra do consumidor, da redução da capacidade dos pequenos agricultores de produzir alimentos e acessar mercados, do aumento do desperdício de alimentos, entre outros, vai mergulhar 132 milhões de pessoas na desnutrição. Naturalmente, o impacto mais duro da fome vai recair sobre aqueles já vulneráveis ou deslocados pela guerra, conflito, desordem social e desemprego. Estes números revelam um sistema que não funciona. Como podemos continuar a fazer vista grossa a esta injustiça? Como o Papa Francisco observou no Dia Mundial da Alimentação em outubro de 2020, ‘para a humanidade, a fome não é apenas uma tragédia, mas é também vergonhosa’. De fato, como escreveu em Fratelli tutti (189), ‘a fome é criminosa’, já que ‘a comida é um direito inalienável’.”

Algumas estatísticas afirmam que a pandemia vai duplicar a fome no mundo inteiro. A questão é, portanto, também uma prioridade para a Comissão Vaticana Covid-19?

“O Papa Francisco deu três prioridades à Comissão Vaticana Covid-19: trabalho para todos, saúde para todos e comida para todos. Ele nos pediu que preparássemos o futuro. Imaginar e regenerar os sistemas alimentares no futuro pós-Covid-19 requer uma abordagem baseada na ecologia integral (cf. Laudato si', 137ff). Uma abordagem enraizada nos princípios fundamentais da dignidade de cada ser humano, do bem comum e do cuidado da nossa casa comum pode inspirar e orientar a ação. Ao tomar decisões à luz desses princípios, somos orientados para ações que apoiem um modelo regenerativo de agricultura e para sistemas alimentares de inspiração agroecológica que beneficiem tanto as pessoas quanto o planeta.”

Um dos maiores problemas na distribuição de alimentos é a concentração do poder de mercado entre poucos atores, e algumas organizações da sociedade civil temem que até a Cúpula da ONU dê muito espaço aos interesses privados... Como evitar isso?

“Um sistema alimentar é sustentável quando fornece alimentos suficientes e nutritivos para todos sem comprometer a saúde do planeta ou as perspectivas das gerações futuras para que suas necessidades alimentares e nutricionais sejam atendidas. O atual sistema alimentar global é dominado por interesses corporativos que excluem pequenos produtores de alimentos, trabalhadores da cadeia alimentar, famílias e consumidores de alcançar a segurança alimentar. De fato, quase 70% dos lucros do comércio agrícola global estão concentrados nas mãos de algumas poucas empresas. Esses desequilíbrios de poder nos prendem ao modelo atual e impedem uma transição verdadeiramente transformadora para a agroecologia e sistemas alimentares sustentáveis. Eles também resultam em salários insuficientes para aqueles que trabalham no setor alimentício e oferecem oportunidades para especulação financeira para dominar os preços. É importante que os sistemas alimentares estejam agora no centro das atenções internacionais e que haja uma conversa global sobre isso. A Santa Sé está participando do processo para assegurar que os interesses de todos sejam respeitados, mas especialmente aqueles que correm o risco de serem deixados de fora. Por outro lado, sem se envolver com os grandes atores do setor privado, a transformação dos sistemas alimentares não vai acontecer. Devemos estar vigilantes sobre o processo.”

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27 julho 2021, 09:48